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Instituto Público

Um ponto de encontro de ideias.

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Um ponto de encontro de ideias.

As duas grandes guerras que a última década perdeu. Definitivamente.

Ah, os bons anos 90. O ocidente crescia à velocidade que queria, ou pelo menos à velocidade suficiente para passar a década inteira praticamente sem falar em crise. As potências emergentes não eram ainda uma ameaça ao nosso crescimento. Havia guerras civis um pouco por toda a África, Ásia, nos Balcãs, na Europa de Leste – e nós não queríamos saber. Um suspiro de pena, talvez uma lágrima, tudo era facilmente ultrapassado enquanto engolíamos o jantar. 

 

Até que a década virou, dois aviões foram contra duas torres e explodiram bombas aqui e ali. O ocidente levou o primeiro balde de água fria do século e acordou para um dos seus grandes temas de aí em diante: o terrorismo. Desde o 11 de Setembro (também antes, mas não com a mesma força) até hoje, as acções mais cretinas que o mundo já viu neste século foram feitas em nome da ‘guerra contra o terrorismo’. Verdadeira arma de destruição massiva de bom-senso, escudo contra todo o disparate, ‘a guerra contra o terrorismo’ fez abrir uma prisão e câmara de tortura semi-declarada, Guantánamo, ao mesmo tempo que, com fundamentos diferentes (ou, no caso do Iraque, simplesmente inexistentes), invadiu dois países e colocou outros como potenciais alvos imediatos. 

 

A fobia cruzou o Atlântico e dividiu a Europa - o que levou Rumsfeld a dividir a Europa em duas, entre a ‘Velha’ e a ‘Nova’. A Velha, constituída sobretudo pela França e a Alemanha, opunha-se à invasão do Iraque; a Nova, constituída pelos novos Estados-membros da UE vindos do Centro e Leste europeus, mas também pelo Reino Unido, Espanha e Portugal, apoiavam-na. A ‘guerra contra o terrorismo’ tinha acabado de dobrar a espinha moral europeia. Numa visão pan-europeia ao estilo de de Gaulle, esta Europa estendia-se ‘até aos Urais’, dado que a Rússia também usou a ‘guerra contra o terrorismo’ para esmagar todos os chechenos, terroristas ou não, que se opunham ao domínio de Moscovo. Sendo islâmicos e aceitando participar na missão militar no Afeganistão, ninguém quis prestar atenção. 

 

Depois de servir como guarda-chuva retórico, a ‘guerra contra o terrorismo’ serviu de guarda-chuva financeiro. Desde o 11 de Setembro, os EUA terão gasto perto de 1,4 triliões de dólares. 1 400 000 000 000 - qualquer coisa assim. Os resultados são os que são possíveis ver: rigorosamente nenhuns. Bin Laden foi morto ao fim de 10 anos, com milhares de mortes acidentais e dois países destruídos (ou mais destruídos, dado que o Afeganistão já não andava em grande forma). 

 

É difícil argumentar que a ‘guerra contra o terrorismo’ tenha valido de alguma coisa; quando muito, a montanha pariu um rato. Alimentou think tanks “trigger-happy” e ajudou a formar uma geração inteira de académicos e estudantes pró-bélicos. A campanha no Afeganistão, com o intuito declarado de ganhar os hearts and minds dos afegãos, deve ter tido francamente mais sucesso deste lado do mundo. 

 

A segunda “grande guerra” foi a “guerra contra a droga”, que teve como epicentro os cartéis do México e da América Latina que exportam para os Estados Unidos, o maior consumidor mundial de tudo, incluindo da maior parte das drogas que alguém se consiga lembrar. 

 

A guerra às drogas, em boa verdade, não é um produto originário da última década, bem como o terrorismo também não o é. Mas ambas conheceram graus de intensidade inéditos, sobretudo a nível de financiamento. À semelhança da “guerra ao terrorismo”, também a “guerra às drogas” foi alvo de financiamento público a níveis incrivelmente altos. Em Junho de 2008 o Congresso Americano aprovou, ao abrigo de um acordo com o México, a transferência de 400 milhões de dólares para aquele país de 65 milhões para outros países da América Latina, para o resto daquele ano. Esse número é uma gota no oceano em relação aos 51 mil milhões anuais que os EUA gastam em média na “guerra contra a droga”.

 

Tal como a “guerra ao terrorismo”, os resultados são, de tão pequenos, completamente desproporcionados em relação aos gastos. Ou, neste caso, ainda menos: como já escrevi noutro artigo no Sinédrio, apesar dos 10 mil milhões de dólares investidos sobretudo pelos EUA no Afeganistão para acabar com o cultivo da papoila (que está na base da produção de 90% da heroína mundial), a produção cresceu para máximos históricos em 2013. Em 2006, quando Felipe Calderón foi eleito presidente do México, endureceu a “guerra contra a droga” no seu país e enviou o exército para as províncias do país com maior presença dos cartéis. Os resultados - algo que já se torna o padrão desta abordagem - foi apenas o escalar da violência, enquanto a produção e exportação se mantiveram. Em suma, e citando George Soros “por mais de quatro décadas, governos de todo o mundo têm injectado elevadas somas de dinheiro no combate às drogas, que se mostraram ineficazes e repressivas”.

 

Talvez pelo facto da “guerra contra as drogas” ter origens mais antigas que a “guerra contra o terrorismo” enquanto política institucional de um estado, mudanças concretas de abordagem e solução do problema começam a surgir, antes e mais claramente que para o problema do terrorismo. O Uruguai, país que nunca chegou a criminalizar as drogas leves, tornou-se pioneiro ao aprovar uma lei que permite o cultivo, comercialização e consumo de cannabis, sem limite de quantidade. A Colômbia, numa reforma recente, descriminalizou o consumo e pequenas quantidades de cannabis e até cocaína. 

 

Claramente, e cada vez mais chefes de estado o admitem, a “guerra contra as drogas” foi um completo falhanço, um flop talvez ainda mais espectacular que a “guerra contra o terrorismo”. O problema, como afirma certeiramente o presidente colombiano José Manuel Santos, é que “certos chefes de estado nem sequer abordam o assunto, ou apenas o fazem depois de acabar o seu mandato (…) porque é um assunto demasiado sensível”. A droga tem o mesmo potencial retórico que o terrorismo (embora apesar de ao limite poderem unir-se, têm consequências muito diferentes no quotidiano). É um mal, faz mal, e o que faz mal combate-se. Há um problema: não resulta. As duas guerras foram declaradas e os beligerantes do lado do bem perderam, porque estavam condenados a isso desde o início. 

 

Por último: note-se que este pequeno ensaio não é, de modo nenhum e em circunstância alguma, uma apologia nem do terrorismo nem das drogas. É a constatação que passámos a última década a investir quantidades impensáveis de dinheiro numa fórmula que nunca poderia dar certo e que devemos, com a urgência de quem já vai largamente atrasado, apostar noutras formas de prevenção e combate que custam muito menos. Quanto ao dinheiro que sobra, há muito onde aplicá-lo - a começar pelo aliviar da pobreza e a correcção das desigualdades. Mas para muitos isto já é demagogia. Bom mesmo é gastar 1 400 000 000 000 em coisa nenhuma.

A falha

Dizer que a esquerda enquanto ideologia organizada surgiu como defesa da classe trabalhadora não é mais que uma evidência. No entanto, o objectivo deste pequeno ensaio tem essa premissa como base de tudo o resto aqui escrito, pelo que não é de mais referi-lo.

 

Até 1945, sensivelmente, a esquerda dedicou-se em grande parte à classe trabalhadora, e só depois à classe média. Com o lançamento do estado-providência pós-1945 e o alargamento de serviços sociais prestados pelo estado, a atenção dada pelo Estado e pela esquerda dividiu-se entre a classe trabalhadora e a classe média em partes iguais.

 

A terciarização da economia e a maior robustez das economias europeias fez o resto: a partir da década de 1970 e em especial com a ‘terceira via’ dos anos 1990, a prioridade da esquerda no governo passou a ser a manutenção do status quo da classe média que votava no centro-esquerda – é errado falar-se numa clientelização do eleitorado desses partidos, mas a classe média é (ou foi, até agora) o motor dos resultados eleitorais recentes dos partidos moderados até esta década.

 

Hoje, a ‘falha’ entre a esquerda-a-velha e a esquerda-a-nova é uma questão de classe.

 

A classe média progressista não evita olhar a classe trabalhadora com um certo olhar paternalista, senão mesmo com algum desdém. A retórica da classe trabalhadora sobre a crise financeira não é, para desilusão do advogado, economista ou consultor ‘progressista’, muito elaborada ou polida. É crua e simples como a casa onde vive (isto da ‘casa onde vive’ vai soar campainhas a acusarem-me de demagogia, já estou a ver). Não há, na análise do operário, expressões como ‘desequilíbrios macroeconómicos’ ou ‘efeitos da globalização’. Há ‘os ricos só olham ao dinheiro’ e ‘os chineses estão a tomar conta de tudo’.

 

Daí até apoiar partidos de extrema-direita é só virar a esquina: os programas e as propostas dos partidos populistas e de extrema-direita são o programa de um partido de centro-esquerda dos anos 1960 – mas sem imigração. Serviços públicos – só para nacionais. Direitos laborais – só para nacionais. Claro que essa visão está errada: a Europa precisa tanto dos seus imigrantes como eles da Europa. Mas o meu ponto é outro: o que está fazer os partidos de centro-esquerda perderem terreno nas sondagens é o facto de terem abandonado os seus programas sociais-democratas clássicos.

 

A nova esquerda moderada continuou, desde os anos 1990, numa retórica cada vez mais elaborada sobre os mercados financeiros, sendo cada vez mais permissiva ao peso da finança na economia e apoiando-se nela para financiar os serviços públicos que ainda manteve depois das privatizações. A classe média não se importou – afinal, a classe média estava bem alinhada com essa esquerda “moderna” – mas esse facto deixou a defesa da classe trabalhadora nas mãos de partidos de esquerda não habitualmente chamados à governação – ou pior, nas da extrema-direita.

 

É este desfasamento que impede a esquerda de se tornar uma força verdadeiramente hegemónica. A esquerda está a perder a classe trabalhadora na forma e arrisca a perdê-la no conteúdo.

A boa imprensa e a má governação

Ainda que até ao congresso do PS António Costa tenha de ser referido como 'candidato a PM' em vez de secretário-geral, a nova máquina do PS já está em marcha: Ferro Rodrigues já é líder parlamentar; o resto da entourage será conhecida em breve. 

 

Costa, parece estar em moda dizê-lo, tem boa imprensa. Dentro e fora de portas: o Hindustan Times merece uma menção honrosa pelo artigo em que retrata Costa como o 'Gandhi de Lisboa'. Mas a boa imprensa que Costa tem ou deixa de ter, dentro ou fora de portas, é um dedo mindinho. Nunca pensei escrever isto, mas: Passos Coelho está a levar António Costa ao colo. 

 

A silly season, como o Verão este ano em Portugal, parece ter chegado tarde. Mas o que perdeu em pontualidade, reforçou em dose: através de dois ministros, sobretudo, o governo tem cometido gaffe atrás de gaffe. A Educação está de pernas para o ar; a Justiça parada - digo, extraordinariamente parada. Nuno Crato e Paula Teixeira da Cruz são autênticos quinta-colunistas do seu próprio governo: quando Passos Coelho e Portas já começavam a abrir portas para um alívio mínimo da carga fiscal para iniciar a campanha eleitoral, os ministros da Educação e da Justiça estão a sabotar o executivo de que fazem parte. A trapalhada na Justiça e na Educação, qual nó nos atacadores dos sapatos que não conseguimos desfazer, está bem instalada e promete fazer correr mais tinta nos próximos dias. 

 

Como diria Passos Coelho, 'que se lixem as eleições'. Costa continua a não precisar de fazer nada para ganhá-las.

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