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Instituto Público

Um ponto de encontro de ideias.

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A falha

Dizer que a esquerda enquanto ideologia organizada surgiu como defesa da classe trabalhadora não é mais que uma evidência. No entanto, o objectivo deste pequeno ensaio tem essa premissa como base de tudo o resto aqui escrito, pelo que não é de mais referi-lo.

 

Até 1945, sensivelmente, a esquerda dedicou-se em grande parte à classe trabalhadora, e só depois à classe média. Com o lançamento do estado-providência pós-1945 e o alargamento de serviços sociais prestados pelo estado, a atenção dada pelo Estado e pela esquerda dividiu-se entre a classe trabalhadora e a classe média em partes iguais.

 

A terciarização da economia e a maior robustez das economias europeias fez o resto: a partir da década de 1970 e em especial com a ‘terceira via’ dos anos 1990, a prioridade da esquerda no governo passou a ser a manutenção do status quo da classe média que votava no centro-esquerda – é errado falar-se numa clientelização do eleitorado desses partidos, mas a classe média é (ou foi, até agora) o motor dos resultados eleitorais recentes dos partidos moderados até esta década.

 

Hoje, a ‘falha’ entre a esquerda-a-velha e a esquerda-a-nova é uma questão de classe.

 

A classe média progressista não evita olhar a classe trabalhadora com um certo olhar paternalista, senão mesmo com algum desdém. A retórica da classe trabalhadora sobre a crise financeira não é, para desilusão do advogado, economista ou consultor ‘progressista’, muito elaborada ou polida. É crua e simples como a casa onde vive (isto da ‘casa onde vive’ vai soar campainhas a acusarem-me de demagogia, já estou a ver). Não há, na análise do operário, expressões como ‘desequilíbrios macroeconómicos’ ou ‘efeitos da globalização’. Há ‘os ricos só olham ao dinheiro’ e ‘os chineses estão a tomar conta de tudo’.

 

Daí até apoiar partidos de extrema-direita é só virar a esquina: os programas e as propostas dos partidos populistas e de extrema-direita são o programa de um partido de centro-esquerda dos anos 1960 – mas sem imigração. Serviços públicos – só para nacionais. Direitos laborais – só para nacionais. Claro que essa visão está errada: a Europa precisa tanto dos seus imigrantes como eles da Europa. Mas o meu ponto é outro: o que está fazer os partidos de centro-esquerda perderem terreno nas sondagens é o facto de terem abandonado os seus programas sociais-democratas clássicos.

 

A nova esquerda moderada continuou, desde os anos 1990, numa retórica cada vez mais elaborada sobre os mercados financeiros, sendo cada vez mais permissiva ao peso da finança na economia e apoiando-se nela para financiar os serviços públicos que ainda manteve depois das privatizações. A classe média não se importou – afinal, a classe média estava bem alinhada com essa esquerda “moderna” – mas esse facto deixou a defesa da classe trabalhadora nas mãos de partidos de esquerda não habitualmente chamados à governação – ou pior, nas da extrema-direita.

 

É este desfasamento que impede a esquerda de se tornar uma força verdadeiramente hegemónica. A esquerda está a perder a classe trabalhadora na forma e arrisca a perdê-la no conteúdo.

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