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Instituto Público

Um ponto de encontro de ideias.

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A incoerência do Sr. Silva

Por Rodrigo Sousa Oliveira

 

O Sr. Silva é o individuo que ocupa o cargo de Presidente da República Portuguesa, mas não o desempenha. O Sr. Silva não é honesto, isento e credível. O Sr. Silva é incoerente e inconsistente nas declarações que faz ao país. O Sr. Silva não é Presidente da República, é anti partidos de esquerda e anticomunista, como deixou bem claro na intervenção que fez hoje ao país.

Há quem acuse os comunistas de serem antidemocráticos. Façam os julgamentos que quiserem sobre isso, mas quem o diz não é nunca um democrata defensor da liberdade e pluralidade partidária e portanto, é antidemocracia. E eu não sou comunista, mas respeito quem o é, porque é livre de pensar a política e a sociedade como quiser, dentro da pluralidade ideológica e partidária em que vivemos desde o 25 de Abril de 1974.

 

Mas voltemos a 73.

 

E repito: o que ontem se passou foi nada mais do que o consolidar da inconsistência do senhor que ocupa a Presidência da República. O homem que a 22 julho de 2015, ao anunciar a data das eleições legislativas, defendeu que o próximo Governo (e cito) “disponha de apoio maioritário e consistente” na Assembleia da República e seja “sólido, estável e douradouro”, para “prosseguir uma política que traga mais riqueza e mais justiça social”. Disse ainda, mumificado, que “é da maior importância que Portugal disponha de condições de estabilidade política e de governabilidade”, algo que voltou a frisar a 6 de outubro.

 

 

Ora, que Pedro Passos Coelho e Paulo Portas não trazem nem riqueza nem justiça social, já sabíamos. Que não lhes deram a tão pedida maioria ficámos todos a saber no dia 4 de outubro. Parece que quem ainda não o entendeu foi só o Sr. Silva.

Os partidos políticos com assento parlamentar ouviram-no, revelaram abertura e abdicaram de bandeiras ideológicas tradicionalistas e ultrapassadas, para chegar a um consenso. O Partido Comunista e o Bloco de Esquerda admitiram viabilizar um Governo liderado pelo Partido Socialista, que por acaso não é contra a NATO, o Euro e a União Europeia, foi aliás, pela mão do mesmo que hoje fazemos parte dela.

 

 

Os quatro partidos que têm maioria no parlamento chegaram a um consenso. O Sr. Silva pediu que se encontrassem soluções governativas contruídas com base nos partidos representados na Assembleia da República, tendo em conta os resultados eleitorais e as forças partidárias, sendo que no dia 6 de Outubro, já depois das eleições, tinha frisado que “cabe aos partidos políticos que elegeram deputados à Assembleia da República (exatamente, eleições legislativas enquadradas num regime semipresidencial e onde não se vota para eleger um Primeiro ministro, mas deputados) revelar abertura para um compromisso que, com sentido de responsabilidade, assegure uma solução governativa”. Os partidos, após várias reuniões que tiveram com o objetivo de chegar a um acordo, encontraram essa solução governativa e apresentaram-na ao mais alto representante da nação. O Sr. Silva apanhou frio nos pés durante a noite e mudou de ideias.

 

 

Que o senhor é incoerente e não é adepto da verdade também já reparámos. Rejeita uma solução governativa que assegura o cumprimento dos compromissos internacionais e portanto, mentiu. Indigitou Pedro Passos Coelho como Primeiro-ministro, alegando que este defende as grandes opções estratégicas nacionais, e que segundo o Sr. Silva foram esmagadoramente sufragadas no dia 4 de Outubro pelos portugueses. Mentiu novamente. Em primeiro lugar, quase metade dos recenseados não foram às urnas, sendo as eleições legislativas menos participadas da democracia portuguesa; em segundo lugar, 36% dos votos não é um valor esmagador nem é maioria em país nenhum do mundo.

 

 

É grave, para alguém que representa o mais alto cargo institucional do Estado Português, não revelar distanciação partidária e alguma dignidade no cargo que desempenha, excluindo 3 partidos com assento parlamentar de qualquer solução de governo, por serem de esquerda. Se esses partidos não podem de forma alguma fazer parte de uma solução governativa, porque é que continuam a ser legais no nosso sistema partidário e a concorrer a eleições legislativas? Até o Partido Popular Monárquico já entrou em coligações governativas Sr. Silva.

 

Alguém que invoca a tradição como base de legitimação de uma decisão, e que dá posse a um Governo que tem já o fim anunciado pelas moções de rejeição de PCP, BE e PS, só pode estar a brincar com a Democracia e a viver em tempos que não são os posteriores a 74. Não só é grave fazer isso, como é incoerente, sabendo que esse Governo estável e duradouro a que deu posse é tudo menos o que pediu que fosse. A maioria existia e existe, a solução governativa também e a base para a estabilidade política estava criada. Mas era de esquerda… e o Sr. Silva dorme mal com isso.

 

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