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Instituto Público

Um ponto de encontro de ideias.

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Um ponto de encontro de ideias.

A irrelevância do átomo – ou qualquer título pretensiosamente inspirado

Sobre o que vou escrever hoje, já muitos escreveram, provavelmente em melhor prosa, mais fluente e menos esforçadamente polida. Mas este tema já me assalta há meses e finalmente cheguei a termos para escrever sobre ele.

 

Não há, em qualquer sítio desenvolvido – da Califórnia ao Japão, passando pela Polónia – nada de novo. Restam vestígios do que foi diferente: nalguns sítios come-se sushi, noutros goulash. Mas pode-se comer sushi na Hungria e goulash no Japão e provavelmente com a mesma qualidade, dependendo do orçamento que se tenha. Restam estereótipos culturais que ambas as partes se esforçam por manter – o sul preguiçoso, o norte trabalhador. Ambos cultivam essa imagem de si e dos outros. A junção de culturas diferentes, com tudo o que trouxe de bom, fez desaparecer o que de verdadeiramente diferente haveria entre países. Mas aonde quer que vá, encontro o centro de qualquer cidade inundada de coffee houses onde se bebe o melhor café italiano, Illy ou Lavazza (deixa-me dar mais um gole, aqui em Vilnius – confere, sabe tal e qual o latte que bebi em Salónica).

 

A globalização tornou os cidadãos consumidores. Essa ideia não é nova. O que é realmente preocupante é o facto de, independentemente da vida ter algum sentido ou não, a clientalização do mundo ter tornado cada consumidor idiotamente irrelevante. Não há substância; a forma é tão estandardizada que o conteúdo de cada um é invariável. Não há marcas distintivas de ser para ser. Os homens são iguais - eat, drink, sleep, repeat. A maior distinção entre dois consumidores hoje é o tipo de coca-cola que preferem ou a rota que escolheram no voo da Ryanair. A dimensão do outro é insignificante, porque somos todos iguais. Antes os Japoneses eram facilmente identificáveis pelas Fujitsu e Kodak ao pescoço – agora usamos todos iPhones. Na Ucrânia ouvia a banda do momento daquelas bandas – agora entro num táxi em Kyiv e ouço Green Day primeiro, Rihanna depois.

 

Claro que essa aproximação, e o melhor nível de vida que isso significa, é positiva. Não estou a por isso em causa – nem consigo, é por demais evidente. Mas perdeu-se qualquer coisa. Qualquer coisa que é necessário voltar a encontrar de uma maneira ou de outra, antes que todas as brilhantes mentes europeias entre os 16 e os 18 anos decidam todas ir num gap year para um canto remoto de África ou o Sudeste Asiático morrer de malária enquanto embarcam na aventura lírica de ir ‘ensinar inglês’, quais neo-exploradores românticos. Eles vão porque não sabem para onde se virar. Dá igual: voltam com um adereço capilar vistoso, a promessa de que a “experiência” mudou as suas vidas e dão uma autêntica volta de 360º graus até chegarem ao mesmo ponto onde estavam antes de partirem e acabarem o curso em, sei lá, gestão ou economia. Fazem três estágios, arranjam um emprego eventualmente e metem o tal adereço capilar vistoso numa caixa a ganhar pó. Os filhos hão-de fazer o mesmo. E os netos – enquanto não soubermos quem somos culturalmente e para onde vamos. É isto. Agora, vou ali à praça central de Varsóvia beber um latte, enquanto uso o wi-fi do café para actualizar o facebook, publicar este texto e já volto aos lattes que bebo em Amesterdão, Londres, em Lisboa ou onde raio for.

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