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Instituto Público

Um ponto de encontro de ideias.

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Bifes mal passados

 

 

“Um roteiro de cómicos fins-de-semana mal passados e tentativas frustradas de fazer férias em Inglaterra serve de ponto de partida para uma viagem pela cultura anglo-saxónica, como vista pelos olhos de um português.”

 

Assim começa a descrição de Bifes Mal Passados (BMP) na própria contracapa do livro de João Magueijo, cientista português radicado em Londres.

 

É um eufemismo, claro; o título da obra anuncia muito mais claramente ao que vem: 187 páginas de um impiedoso ataque a tudo o que os ingleses alguma vez pensaram, fizeram ou tocaram. Na verdade, pensei inicialmente em escrever sobre outro livro, talvez sobre os Maias ou algo que tenha lido nos anos do Liceu. Acabei por não o fazer por três razões:

 

(1), 90% dos leitores deste jornal já devem estar fartos de ler os Maias ou sobre os Maias, por razões óbvias;

 

(2) dada a minha condição actual (um dos milhares de tugas radicados em Londres), fui particularmente sensível ao livro, sobretudo depois de reparar no burburinho que provocou em Inglaterra;

 

e, não menos importante,

 

(3) o livro é um retrato cru mas em muitos casos verdadeiro. Já lá vou.

 

Primeiro, aspectos formais: BMP tem exactamente a mesma formatação de um livro do Bando dos Quatro ou da Bola-F: cento e tal páginas, letra gorda e capítulos que começam na segunda metade da página. É de leitura fácil; no fundo, é uma crónica desdenhosa escrita sem preocupações literárias de maior.

 

É-o declaradamente, diga-se. Magueijo não abdica de pruridos literários só porque sim; antes, fá-lo porque isso imprime ao livro o carácter cru que o autor deliberadamente deixa passar. BMP está simples mas cautelosamente dividido em 12 capítulos, cada um com o propósito de destruir uma particularidade da vida inglesa. Ouvimos falar de praias em Blackpool próprias para a observação de ‘baleias humanas’, os hábitos alcoólicos particularmente pouco saudáveis dos ‘bifes’, a depressão que é passar férias em Inglaterra. Mas também, num registo mais sério (e portanto mais desprovido da linguagem mais galhofeira que pontua os outros capítulos) sobre como a sociedade inglesa é ainda xenófoba, com toques coloniais e cuja economia é, na sua raiz, desigual e injusta.

 

Vale a pena, depois de se ler o livro, ler sobre o livro. Tanto quanto mais não seja por ver confirmado aquilo que o leitor suspeita ser o ponto gravitacional da obra: no-fundo-no-fundo, Magueijo gosta de Inglaterra. Tal como o autor diz, a vida lá/aqui[1] é uma porcaria (Magueijo até usa termos mais coloridos, mas que me absterei de usar numa publicação escolar), mas é essa porcaria que força os ingleses a preocuparem-se menos com boas maneiras e mais com a exigência no trabalho. “Aqui ninguém fica chocado por um Professor Catedrático dizer carvalho [Magueijo não escreve exactamente carvalho], o escândalo seria o Senhor Professor Doutor não publicar ideias novas. Portugal é o preciso oposto. Agradeço pois a este país o clima de trabalho que me ofereceu, onde a originalidade e a excentricidade não são vistas como uma doença venérea, mas sim como aquilo é que esperado. O pior é o resto”. Eu não podia concordar mais – e não podia deixar de o dizer, enquanto acabo esta crónica apressadamente, por motivos de espaço.

 

 

 

 

 

[1] Esta duplicidade não me serve a mim, mas ao autor, que se considera um apátrida, perdido no caminho entre Portugal e o Reino Unido.

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