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Instituto Público

Um ponto de encontro de ideias.

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Onde o PS se meter, leva

Uma semana após as eleições, não é ainda claro quem irá governar - isto apesar da coligação ter ganho claramente, goste-se ou não do resultado. Se é verdade que há uma maioria de esquerda no parlamento, é certamente claro que dada a impopularidade que o governo dos últimos 4 anos granjeou no país faz com que o 2º lugar do PS corresponda a uma derrota, e a uma derrota clara. Ponto.

 

Dito isto, estou dividido sobre uma possível união de esquerda: o facto de finalmente parecer possível ao fim de 41 anos de democracia é entuasiasmante. Bastante entuasiasmante. Para ser uma realidade, é necessário que as três forças políticas de esquerda (o que é que se faz ao PAN?) se juntem no apoio a um governo com maioria parlamentar. Esta é uma oportunidade única para a esquerda portuguesa se unir e mostrar que, afinal, é possível criar pontes. E é agora ou nunca. A oportunidade histórica dessa união é agora e a responsabilidade de torná-la realidade cabe ao PS, dada a inédita abertura de BE e CDU. 

 

O contexto internacional sopra a favor: a recente eleição de Corbyn para o Labour Party no Reino Unido, a viragem mais social-democrata do Syriza e o desaparecimento da sua ala esquerda, a contestação dentro do Partido Socialista francês a Hollande ou a política relativamente aberta do diálogo do PSOE, bem com o crescimento irregular de novas forças políticas à esquerda do tradicional centro-esquerda tornam este quadro como o mais favorável desde os anos 1930 a um entendimento alargado à esquerda. Ao aceitar dar esse passo, António Costa ficaria para a história como provavelmente o único líder em gerações que conseguiu um acordo à esquerda. 

 

Por outro lado, por mais que o contexto internacional seja favorável, só alguém completamente ingénuo poderá acreditar que uma solução de governo e maioria parlamentar de esquerda com PS, BE e CDU irá correr sem problemas, quanto mais aguentar 4 anos. Sendo generoso, há 85% de chances (e estou a deflacionar essa possibilidade num acto de boa-fé) no espaço de ano e meia depois de um governo de esquerda estar instalado, o BE e a CDU retirariam o tapete ao PS devido a uma medida que, para os primeiros, seria uma 'capitulação à Europa neo-liberal da senhora Merkel' ou 'um ataque uma traição aos trabalhadores/a submissão a um novo pacto de agressão'. Novas eleições teriam de ser realizadas. A CDU seria provavelmente a que seria menos prejudicada, por ter o eleitorado menos volátil. O BE correria o risco de se separar em mais facções; mais certo era ser esmagado e ter um dos seus piores resultados de sempre. O PS entraria numa verdadeira 'espiral recessiva' eleitoral: não haveria manobra que aguentasse Costa na liderança por mais um segundo e o eleitorado puniria o PS com um resultado que faria Vítor Constâncio parecer um líder nato. O PS ia iniciar uma travessa do deserto muito mais longa que a do PSD durante o guterrismo. PSD e CDS nem precisariam de se coligar para terem uma maioria de 2/3 no Parlamento e ditarem uma reforma constitucional de tamanho familiar. Talvez o Livre tivesse esperança de dessa vez eleger um deputado, mas sinceramente não ia interessar para nada. 

 

A alternativa à união de esquerda força Costa a viabilizar o governo de direita e a garantir-lhe um apoio mínimo para a sua sobrevivência - uma espécie de abstenção violenta, portanto. Onde será que eu já vi isto? Costa fica para a história como o líder que rejeitou um entendimento histórico à esquerda e provavelmente fica com os dias contados na liderança do PS - se Costa continua líder é precisamente porque continua suportado pela ala esquerda dos socialistas que ambicionam um acordo com BE e CDU. O melhor que Costa pode fazer é esperar que um governo minoritário de direita impluda rapidamente e posteriormente ganhar essas eleições - e rezar para aguentar-se até lá. O problema é que a coligação também não quer deixar de ser governo e está disposta a dar a Costa tanto espaço quanto ele entender. 

 

A escolha que Costa terá de fazer esta semana é simples de explicar, mas será sempre contra ele mesmo, e apenas por culpa das suas hesitações durante a campanha. Quem faz campanha um programa de centro-centro-esquerda e uma retórica de esquerda recebe em votos a divisão dos dois: poucochinho. Desta vez, a célebre frase de Jorge Coelho, não se aplica. Quem se mete com o PS, não leva, necessariamente. Mas aonde quer que o PS se meter, o PS vai levar.

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