Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Instituto Público

Um ponto de encontro de ideias.

Instituto Público

Um ponto de encontro de ideias.

Sem brandos costumes

 

 

José Sócrates foi preso à saída do avião que o trazia de Paris, detido para interrogatório e finalmente colocado em prisão preventiva. Até aqui tudo bem. Ao processo em si já lá vou. O que não faz sentido é estarem meios de comunicação social casualmente a passarem pelo aeroporto de câmaras na mão, preparados ao ponto de captarem imagens do ex-primeiro-ministro a ser detido e levado para interrogatório. Ou temos os melhores, mais sagazes jornalistas desde que há memória, com uma intuição verdadeiramente sobrenatural, ou as violações do segredo de justiça continuam ao mesmo nível de outros processos. A minha intuição, singela e mundana como é, leva-me a suspeitar da segunda hipótese.

 

Não tenho absolutamente nada a dizer o caso. A detenção de Sócrates, havendo motivos para tal, é só mais uma detenção - é preocupante para a sociedade pelo facto de estarmos a falar de um ex-primeiro-ministro, mas isso à Justiça não interessa nem deve interessar. Seguramente também não irei defender Sócrates. A sua figura política nunca me suscitou nenhuma simpatia de maior: acho parte do seu legado positivo e parte negativo. Mas também não é esse o debate. 

 

Quero centrar este texto em duas questões. Em primeiro lugar, o que já brevemente abordei acima: as violações do segredo de justiça. Em segundo lugar, o autêntico veneno político latente que este caso, receio, irá provocar na esquerda e na campanha eleitoral.

 

Como já referi, não tenho nada para contestar a acção da justiça. Sócrates foi detido, interrogado e posto em prisão preventiva. Trâmites perfeitamente normais em qualquer processo. O que não é normal é o nível de detalhe – e de antecipação, assumindo que as equipas da SIC e da CMTV não tenham combinado ir tomar café ao aeroporto – que os meios de comunicação social revelaram. As reportagens e a ‘investigação’ da saudosa Felícia Cabrita, sempre ela, prontas a sair nem duas horas depois da detenção de Sócrates. Essas reportagens são desconfortáveis, mas tão-só isso. Já o nível de detalhe, bem dentro do núcleo de informação seguramente protegido pelo segredo de justiça, a que jornais e televisões tiveram acesso é desinquietante. Espero, sinceramente, que este processo não seja mais um Casa Pia. Em que o caos seja usado como forma de ilibar alguém, atirando com tantas suspeitas e tantos putativos arguidos e em que no fim não se apure a verdade. Que não se lance fumo sobre todos e no fim ninguém tenha ateado o fogo. Que tanta reportagem, tanta testemunha em vocoder, tanta denúncia anónima, tantas vezes ligada a política, não sirva para nada. A mediatização deste processo e a permeabilidade de informação entre justiça e comunicação social inquieta-me.

 

A este ponto talvez seja útil repetir o seguinte: não tenho nenhuma apreciação de maior por Sócrates. Não simpatizo com a figura. Não estou na metade do país que o idolatra. Mas também não estou, seguramente, na metade do país que bebe um copo de ódio-a-Sócrates ao pequeno-almoço, nem que vê nele o anti-Cristo. Se Sócrates for culpado, desejo – desejo sinceramente – que seja condenado. Senão, não. Simples. Simplex.

 

O primeiro ponto é sem dúvida importante para a credibilização da justiça – e para a descredibilização da política, se o processo não for conduzido de forma clara. Mas esse aspecto, depois de tantos casos mediáticos que tiveram fins inconclusivos, não é novidade em Portugal. O segundo ponto é razoavelmente inédito: a menos de um ano das legislativas, temos um elemento odiado por metade do país em prisão preventiva por acusações gravíssimas. O seu antigo número dois é o secretário-geral do mesmo partido. Não é preciso exactamente fazer um desenho para revelar a guerra suja ao PS (e à esquerda, numa visão dicotómica PS ou PSD/CDS das próximas eleições) que este processo pode significar. E muito honestamente, não acredito que a dignidade resista à tentação. António Costa e o PS vão ser atacados com isto, tão mais quanto as eleições estiverem próximas. E quando os “spin doctors”, assumindo que os há, decidirem que é preciso refrescar daqui a uns meses, o processo Casa Pia vai ser ressuscitado. Já vejo as ligações: Costa era número dois de Sócrates. Mas Costa também era parte integrante da liderança do PS em 2003 – já vi, várias vezes nos últimos dias, imagens de Ferro, Pedroso e Costa lado a lado numa conferência de imprensa devido à detenção/libertação de Pedroso – era líder parlamentar. Hoje Ferro é líder parlamentar e Costa líder do partido. Nenhum dos dois está no epicentro de nenhum dos casos, mas estão demasiado perto para não serem puxados para ele. “São todos uns gatunos”, todos iguais, vai correr por aí. Passos Coelho já disse que não era(m).

 

Fui longe de mais? Não acho. Chamem-me de lunático. Daqui a uns meses falamos.

 

P. S. – no entretanto, nem vistos Gold, nem nada do caso BES. O mediatismo tem défice de atenção.

 

Facebook

Networked Blogs

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D