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Instituto Público

Um ponto de encontro de ideias.

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A glorificação de Merkel

 

A maneira como os acontecimentos se foram sucedendo nos últimos meses trouxe uma consequência imprevista à dinâmica política europeia: a bifurcação da posição da Alemanha na Europa entre Schauble e Merkel. Já todos vimos este filme repetidas vezes ultimamente: o ‘sr.’ Schauble diz algo entre o insensível, o insultuoso e o provocador do alto do seu pedestal. Os comentários de Schauble originam ondas de choque. Nas reacções noticiosas, Merkel não é citada, mas antes uma ‘fonte próxima da chanceler’ retrata Merkel como a voz equilibrada e sempre com esperança num acordo europeu, dentro de um governo alemão que perdeu a paciência com as infantilidade dos gregos.

 

Este esquema noticioso contribuiu para a imagem de Merkel como o polícia bom e Schauble como o polícia mau. Isso originou a primeira metade da ‘glorificação’ de Merkel. A segunda metade é-nos trazida pelas ‘análises’ de New York Times e quejandos de Angela Merkel, onde a chanceler é sempre retratada como alguém de um tacto político superior - e se há alguém que pode salvar a Europa é ela, porque todos os outros já perderam a cabeça. Parafraseando a Mensagem, o que essas análises parecem dizer é ‘Merkel, é a hora’ - salva estes pobres europeus!

 

A ver se nos entendemos: Merkel é a chanceler alemã. Angela Merkel não é uma espécie de papa da UE, qual líder espiritual dos fiéis cuja função é orientá-los. Se a chanceler alemã não faz mais nada para ‘salvar’ o euro, a UE ou a minha colecção de selos, é porque não quer - ou não sabe, ou não pode. O que não consigo perceber é donde é que surgiu a noção de que toda a gente está a remar para um lado e a sábia Merkel, condenada a aturar todos estes incompetentes, para outro. Não esqueçamos que a razão pela qual a Europa está mergulhada nesta crise tão profunda se deve ao facto de, quando as dívidas soberanas de vários estados-membros começaram a ser atacadas pelos mercados, a UE não teve uma resposta forte e que acalmasse essa turbulência. Não teve porque Merkel não quis - a chanceler preferiu sempre fazer o mínimo possível e o mais tarde possível, mesmo que isso tivesse custos superiores a uma resposta forte e imediata. Quando essa resposta veio - por parte de Draghi, em 2012 - é que a Europa respirou, ao fim de dois anos de agonia. Para além dos problemas isolados dos países que estão no epicentro desta crise, foi essa falta de resposta colectiva da UE, patrocinada pela Alemanha, que nos fez todos mergulhar neste impasse agonizante cujo paradigma é uma matrioshka de cimeiras decisivas.

 

Merkel tem, certamente, dotes políticos significativos - em rota para superar o tempo de Helmut Kohl na chancelaria. Admito sem hesitar que é provavelmente a mais capaz estadista que a Europa conhece actualmente. Infelizmente, isso não nos serve de nada.

 

 

Bifes mal passados

 

 

“Um roteiro de cómicos fins-de-semana mal passados e tentativas frustradas de fazer férias em Inglaterra serve de ponto de partida para uma viagem pela cultura anglo-saxónica, como vista pelos olhos de um português.”

 

Assim começa a descrição de Bifes Mal Passados (BMP) na própria contracapa do livro de João Magueijo, cientista português radicado em Londres.

 

É um eufemismo, claro; o título da obra anuncia muito mais claramente ao que vem: 187 páginas de um impiedoso ataque a tudo o que os ingleses alguma vez pensaram, fizeram ou tocaram. Na verdade, pensei inicialmente em escrever sobre outro livro, talvez sobre os Maias ou algo que tenha lido nos anos do Liceu. Acabei por não o fazer por três razões:

 

(1), 90% dos leitores deste jornal já devem estar fartos de ler os Maias ou sobre os Maias, por razões óbvias;

 

(2) dada a minha condição actual (um dos milhares de tugas radicados em Londres), fui particularmente sensível ao livro, sobretudo depois de reparar no burburinho que provocou em Inglaterra;

 

e, não menos importante,

 

(3) o livro é um retrato cru mas em muitos casos verdadeiro. Já lá vou.

 

Primeiro, aspectos formais: BMP tem exactamente a mesma formatação de um livro do Bando dos Quatro ou da Bola-F: cento e tal páginas, letra gorda e capítulos que começam na segunda metade da página. É de leitura fácil; no fundo, é uma crónica desdenhosa escrita sem preocupações literárias de maior.

 

É-o declaradamente, diga-se. Magueijo não abdica de pruridos literários só porque sim; antes, fá-lo porque isso imprime ao livro o carácter cru que o autor deliberadamente deixa passar. BMP está simples mas cautelosamente dividido em 12 capítulos, cada um com o propósito de destruir uma particularidade da vida inglesa. Ouvimos falar de praias em Blackpool próprias para a observação de ‘baleias humanas’, os hábitos alcoólicos particularmente pouco saudáveis dos ‘bifes’, a depressão que é passar férias em Inglaterra. Mas também, num registo mais sério (e portanto mais desprovido da linguagem mais galhofeira que pontua os outros capítulos) sobre como a sociedade inglesa é ainda xenófoba, com toques coloniais e cuja economia é, na sua raiz, desigual e injusta.

 

Vale a pena, depois de se ler o livro, ler sobre o livro. Tanto quanto mais não seja por ver confirmado aquilo que o leitor suspeita ser o ponto gravitacional da obra: no-fundo-no-fundo, Magueijo gosta de Inglaterra. Tal como o autor diz, a vida lá/aqui[1] é uma porcaria (Magueijo até usa termos mais coloridos, mas que me absterei de usar numa publicação escolar), mas é essa porcaria que força os ingleses a preocuparem-se menos com boas maneiras e mais com a exigência no trabalho. “Aqui ninguém fica chocado por um Professor Catedrático dizer carvalho [Magueijo não escreve exactamente carvalho], o escândalo seria o Senhor Professor Doutor não publicar ideias novas. Portugal é o preciso oposto. Agradeço pois a este país o clima de trabalho que me ofereceu, onde a originalidade e a excentricidade não são vistas como uma doença venérea, mas sim como aquilo é que esperado. O pior é o resto”. Eu não podia concordar mais – e não podia deixar de o dizer, enquanto acabo esta crónica apressadamente, por motivos de espaço.

 

 

 

 

 

[1] Esta duplicidade não me serve a mim, mas ao autor, que se considera um apátrida, perdido no caminho entre Portugal e o Reino Unido.

Esforço, dedicação, devoção e ingratidão

 

 

Confirmado o negócio, é fácil perceber porque a vinda de Jesus para o Sporting e o despedimento (por justa causa?!) de Marco Silva foi, para tantos adeptos, um 'golpe de mestre' por parte de Bruno de Carvalho: BdC 'roubou' o treinador do maior rival, o mesmo que os levara a muitos troféus e a ainda mais finais. Não só ficamos com um treinador 'ganhador', fomos roubá-lo ao rival. Ainda por cima, Jorge Jesus é Sportinguista. Perfect match

 

Compreendo perfeitamente estes argumentos - mas discordo totalmente. Em primeiro lugar, o Sporting vinha vivendo um período de estabilização desportiva e financeira que ainda não está completo (apesar das contas do SCP estarem relativamente mais estabilizadas que as dos seus rivais). Depois de anos muito conturbados, o Sporting vinha conseguindo resultados desportivos interessantes com um plantel indiscutivelmente mais modesto que o de Benfica e Porto. Os títulos voltaram com a conquista desta Taça - fruto do trabalho de Marco Silva e da equipa, não de BdC, cujas intervenções raras vezes contribuíram para tranquilizar o ambiente em Alvalade. 

 

Ora, esta contratação de Jesus vem ao arrepio desta política. Em primeiro lugar, devido ao avultado investimento no vencimento do treinador, co-financiado (ou não?) por investidores de Angola e da Guiné Equatorial. Esse investimento, sendo tão avultado, só faz sentido se não vier sozinho: seguramente o Sporting investirá este defesa em contratações de jogadores mais do que gastou nas últimas duas épocas. 

 

Isso implica obrigatoriamente uma diminuição da importância de Alcohete na composição do plantel do Sporting. Serei breve neste ponto: apenas não estou seguro que seja esse o caminho certo nesta altura.

 

Em terceiro lugar, como Sportinguista senti-me embaraçado, senão mesmo envergonhado, pela forma como Marco Silva foi tratado, antes e durante este processo. Desde a birra de BdC no Natal, à falta de reconhecimento do mérito do técnico na conquista da Taça, à falta de transparência com Marco Silva sobre o seu futuro no Sporting, o clube foi incorrecto e injusto na forma como geriu a sua relação com MS - que, pelo seu (e da equipa) esforço, dedicação e devoção, certamente mereceriam a sua parte de glória. Na minha opinião, Marco Silva deveria continuar ao leme da equipa - já era tempo do Sporting ter o mesmo treinador duas épocas seguidas e beneficiar de alguma estabilidade. No entanto, não continuando, essa decisão devia ter-lhe sido comunicada atempadamente e de forma transparente. O recurso ao despedimento por justa causa é de tal forma estapafúrdio que não se me oferece quaisquer comentários. 

 

Se esta aposta arriscada em Jorge Jesus funcionar (e, como Sportinguista, assim o espero), Bruno de Carvalho acabou de comprar o seu passe para a história do Sporting como o homem que trouxe a glória de volta ao clube (depois de, seguramente, ter resgatado o Sporting do caos em que se encontrava). Se, no entanto, o Sporting não for campeão nos próximos 2 anos, esta 'jogada de mestre' irá revelar-se um monumental erro e fazer o SCP andar para trás...outra vez. Espero que não. Veremos. 

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